sumidouro

muuuuuuuuuuubimento

Cristina O

Uma física redoma o céu, volvido cosmos, à escala da câmara.
A imensa e variada fruta está suspensa do azul-negro, os insectos maravedis voltaram ao conforto das artérias cretenses.
O erotismo é um contra-tempo. Não se vincula ao pragmatismo ou à fúria da concretização.
O naipe branco dos dentes morde a circunstância sem a impregnar de continuidade.
Está sem programa. Não trabalha Para. Está por inteiro Com. Está. Em Olimbo.
Fora dos Olimpes, sem compe-TIR.
O branco não é o palimpsesto onde preencher. É preenchimento.
O corpo é agora uma multidão.
De corpos e frutas.
Estende-se por toda a pradaria celeste como um Princípio veraz.
Cabe no universo do espelho mirado em luxidez.
Não é com as mão que faço subir as vestes brancas de Cristina O.

06/03/2007 Publicado por | les autres | Deixe um Comentário

Nojo

uma peça nojenta de alberto augusto miranda

 

1

Cenário Branco

 

Il – Porque choras?

Claude – Porque não tenho nada para fazer

De repente uma nuvem de pés altos sublinha a distância.

Todas As Pessoas Escondidas – É o fim!

Entra o Espelho perseguido por uma luz forte.

Após bravatas de concorrência, o Espelho ocupa toda a cena. Gritos lancinantes saem detrás do Espelho.

Vultos vários tentam passar à frente do Espelho e mirarem-se. Caem sempre atingidos por uma descarga luminosa. Alguns ficam ainda moribundos e conseguem ter o tempo suficiente para recitar:

-Podia ser uma maravilha!

2

O espelho retira-se, sempre acompanhado da personalidade da luz. Novamente cenário branco.

Fumo. Muito fumo.

Claude, que mergulhara a cabeça entre os braços, soergue-se e apoia a mão direita no ombro esquerdo de Il.

Claude – Amigo, que ironia!

Ela tem razão – dizem alguns espectadores .

Il cai, destemperado, monotonamente, e deposita os lábios no tornozelo de Claude;

Depois enlaça-lhe as pernas, fazendo-a cair.

Ambos ficam estendidos em linha recta.

3

Há muito tempo que se ouve, sussurrante, uma música.

Talvez Prokofiev.

Ela estala agora na cena nua.

Passam multidões
em diagonal. Continuamente. Em cada triângulo formado pelas duas diagonais de gente, chovem flores. De preferência cravos vermelhos, miosótis e salgueiros. As flores, por acumulação, chegam à altura dos homens e mulheres que lentamente vão deixando um círculo aberto no meio das diagonais.

Claude, descendo até ao círculo, grita alegre e enérgica:

Claude – VIVA!

Il desce rapidamente, coloca-se ao lado de Claude, abraça-a, olha para todos os lados e finalmente proclama:

Il – SOMOS NÓS!

Claude e Il deixam o círculo e alagam-se de flores. Os homens retomam a marcha diagonal, Prokofiev agudiza-se e a luz vai suave em desaparição.

4

Penumbra. Uma cama.

Claude – Hoje…

Il – Sim…

Claude – hoje…

Il – Pois foi…

Claude – Amanhã…

Il – Amanhã…

Claude – Se amanhã fosse…

Il – Claro que há-de ser…

Claude – Achas?

Il – Oh meu amor…

Fornicam sem som. A preto e branco.

5

Agora, debaixo de um cenário absurdo, Claude aparece disfarçada. Mas não o suficiente para impedir Il de a reconhecer.

Il (nada admirado, apenas curioso) – Porquê, Claude?

Claude – E porquê esse porquê?

Il, com um gesto de fastio, movimenta as pernas em direcção a um canto de indiferença.

Claude – Está bem, Il, eu explico-te.

Il (encolhendo os ombros) – Diz lá!

Claude – Este disfarce é um abrigo contra o nojo!

Ouve-se o barulho do céu.

Il, que no fundo é um romântico, despoleta toda a sua energia e, num salto espectacular, ultrapassa a mesa de pinho colocada ao centro da cena. Isto provoca aplausos prolongados de uma assistência sebastianista. Assustado e sobretudo admirado com o clamor das palmas, Il regressa aos seus aposentos de ingenuidade.

6

Claude – Eu adivinhava que não me compreenderias!

Il treme, estrebucha, revira-se, levanta-se e corre loucamente pelo palco. Nem ele próprio sabe quando vai parar. Quando a vertigem fica sem lubrificação, está diante de Claude.

Il – Eu compreendo-te Claude, eu compreendo-te Claude, eu COMPREENDO!

Claude que já sabia que não estava só, assume uma atitude de coquete. Il abana a cabeça. Claude insiste Fica temporariamente nua.

Claude (virando-se de frente para Il) – Eis!

Il abana a cabeça, agita os braços em sinal interrogativo, poisa as mãos nos ombros de Claude e, calmamente, desembaraça-se do seu saber:

Il – Eu compreendo-te Claude, eu compreendo-te Claude, claro que te compreendo!!!

Claude perde os sentidos.

7

Emudecidos pela confusão, Claude e Il penetram no conflito que duas diagonais de gente novamente lhes estendem. Il tem ataques de misantropia enquanto Claude não resiste a subconscientes acessos folclóricos. Silêncio. Muito silêncio. Silêncio absoluto. A marcha das diagonais é o melhor e mais conseguido silêncio. O público não fala. A porta das entradas já fechou e ninguém reclama o bilhete que não teve. Claude é possuída por uma associação de ideias perturbadora, embora ligeira. Em sucessivas análises, faz a comparação dos silêncios. Conjugando as suas interiores dissertações, perfeitamente sintonizadas com alguns sectores do público, berra-canta em estilo hard-rock, com caixa-de-ritmos tecno:

- QUE – SE – FA – ÇA – BA – RU – LHO!

8

Um arlequim histórico entra decididamente em palco e estendendo o dedo indicador, interroga altaneiro:

Arlequim – Quem profanou?

Il retira do bolso um fósforo aceso e os holofotes que brilhavam intermitentemente ao tempo da fala de Arlequim, desligam-se automaticamente.

Arlequim (confundido e em pânico) – Liguem as Luzes da Ribalta!

O fósforo extingue-se. Ouve-se o barulho de interruptores sem que se consiga obter a luz artificial. Este é o momento em que alguns carteiristas cultos, conhecedores da peça, trabalham afanosamente. Acende-se uma luz mediana. Aproxima-se um homem de aspecto consciente e diz em forte e convicção:

Homem – Que ninguém fique à espera!

Brilham de novo os holofotes coloridos, reentra o Espelho e saem as pessoas.

9

O Espelho reflecte agora apenas uma luz branca enquanto se baloiça em borbulhas de caldeira pensante.

Espelho – É preciso desenlaçar os olhos do nó dos preconceitos. Serei então útil e cultural. Sobretudo reencontrarei a minha sinceridade
em vós. Quando vos vejo logo vos sinto dentro de mim. É verdade… sou altamente influenciável.

O Presidente da Administração Que Assiste à Peça (virando-se para um accionista:) – Coitado, está deprimido este mendigo de atenção. Temos de falar com ele.

Accionista – Não se preocupe, nós já enviámos um novo menu de software para especuladores.

Espelho – Mas nós não somos todos iguais. Há espelhos que vos deformam correndo o risco de ser estilhaçados. Muitos de vós não gostam de saber o que são, ou melhor, não gostam que alguém saiba o que são. Mas se houver um voluntário eu mostrar-lhe-ei o que ele é realmente.

Vozes – Convencido! Diletante!

10

Ninguém se aproxima.

Ouve-se um estrondo.

A luz branca apaga-se e acendem-se algumas dezenas de velas da altura de um metro.

O Espelho cai e desfaz-se em vidrinhos.

O Requiem de Mozart vem à tona do palco.

As velas foram colocadas de modo a formarem pistas circulares que comunicam entre si por uma passagem igualmente formada por velas.

Os abutres voam num slide projectado sobre um pano branco segurado por Claude e Il.

Sempre ouvindo o Requiem, Claude e Il fazem o percurso que atravessa os caminhos circulares de velas. O seu passeio é lento. À sua passagem vão apagando as velas que os ladeiam. Quando se extingue a chama da última vela extingue-se também a última nota do Requiem.

Breve silêncio escuro.

Um galo canta fazendo renascer nos assistentes mais tradicionalistas, o ideal da Aurea Mediocritas.

11

Claude e Il desembaraçam-se do estranho cenário sem no entanto conseguirem um cenário homogéneo. Essa impossibilidade comporta a denúncia de uma mútua frustração que submerge a toda a largura do palco.

O palco ondula como uma jangada no alto mar.

Palco – Vou para onde sou levado. A verdade é que nutro uma paixão pelos oceanos. O Antárctico é o meu favorito enquanto o Atlântico me provoca recordações vicentinas. Vou por vezes passar férias ao Mediterrâneo. Mas no fundo sinto-me civilizado. Quando cruzo o Pacífico perco a personalidade. Um palco consciente não pode estar tranquilo!

Oriundo da 3ª fila, o Liberalismo salta para cima do palco e, compondo a écharpe, dispara histérico e ecléctico:

Liberalismo – Lugar a todos no palco! Mortos e vivos! Maçónicos, Opus Day e Espíritas! Psicopatas e polícias! Torcionários e rebeldes! Franceses e prussianos! Tarados e misóginos…

Neste momento o Liberalismo é interrompido por uma gargalhada geral que anuncia o términos duma actuação antiquada.

12

Noite cerrada.

Um cerco de ilusões diminui a largura do palco.

Projecta-se o passado.

Baloiça um candelabro.

Um morcego é surpreendido no seu voo mágico.

Uma luz ilumina uma guilhotina sofisticada.

Claude adormeceu compulsivamente.

Il fuma.

O sonho mais directo esmurra nas galerias.

Lamenta-se a perda da suavidade.

Cantos religiosos – talvez espirituais negros – acompanham as baforadas de fumo que Il vomita.

Il – Que nojo, meu Deus!

Uma gargalhada assustadora arrepia os mais prevenidos.

Os cantos também se desagregam momentaneamente.

Claude estrebucha mas o soporífero é mais forte.

Renasce a metamorfose dos conceitos.

No público instala-se o medo ao desconhecido.

Espectador (em pavor) – Sabes? Isto é a Morte!

Outro Espectador– A Morte?

(Entra em pânico como nos tempos de infância injectada)

Espectador – Sim, a Morte!

13

Il – Que nojo, meu Deus!

Deus – Não digas isso, meu filho.

Claude estrebucha de novo. Um estertor místico revolve-lhe o corpo saturado.

Faz movimentos de mãos e braços inseguros.

Eleva as pernas à altura da dúvida.

Il – Olha, deus, eu faço o que me apetece!

Deus – Como queiras. Eu ofereci-vos a liberdade.

Il – A liberdade… Podias ser menos ridículo.

Os coros religiosos entoam atrozmente a Missa Solemnis de Beethoven.

Todos tremem em volta do espectáculo. Alguns tentam fugir. Mas é inútil: estão grudados pela Ignorância.

Il (alteando a voz, em lírico-profano) –Hossana, lá nas alturas!

Claude tem um sobressalto, semilevanta-se e implora:

Claude – Cala-te, Il, por amor de deus!

Um manto preto abafa as vozes e cobre os intérpretes.

14

Claude e Il fazem planos de abandono do palco.

Claude – Como iremos sair daqui?

Il (abraçando-a) – Não penses nisso agora

Claude –Não, Il, nada de amor. O momento é muito grave.

Il – Por isso mesmo. Precisamos de calma e a melhor maneira de o conseguirmos é cansarmo-nos como esforço da carne.

Claude – Essa terapia já expirou a validade.

Il – Puro engano, Claude. Sempre foi assim. É uma catarse necessária desde os sedentários. É universal.

Claude – Porque foges, Il?

Il –Tu queres resolver, não é? Sair do palco para sempre. Mas onde está a alternativa? Vá, não fujas, responde!

Claude (tomando posse do corpo de Il) – És sempre o mesmo freudiano!

15

O Arlequim reentra cantando:

Arlequim, Arlequim doirado

Que nasce do monte

Sem ser semeado

Arlequim – Ahá! Parece que eles se vão embora. Vai ser uma limpeza. Vou ter um palco só para mim.

Cantarola:

Eu sou o Arlequim Tenho um palco só para mim

Il (calmamente) – Ouve lá, ó Arlequim…

Arlequim – Faça o favor de dizer…

Il (autoritário) – Vai-te embora! Desaparece da peça, desaparece do palco, desaparece do quadro, desaparece da cena, desaparece do cenário – RUA!

Claude – Il, eu também fico!

Il (à parte) – Nada como uma boa demonstração de machismo!

16

Do público, compacto e maciço, restam apenas duas pessoas

Claude – Eu não te dizia? Devíamos ter feito um teatro a sério!

Arlequim – Que vos dizia eu?

Il – O que vocês queriam era telenovela. Uma telenovela, sim, uma telenovela! Uma telenovela com vítimas e heróis, uma ficção que repetisse o que vocês já soubessem. Com princípio, meio e fim. Era o que queriam, não era?

Um Dos Espectadores (peremptório) – Era sim senhor. O que nós queríamos era teatro.

Il – Isso quer dizer que nós não fizemos teatro! Claude, nós conseguimos não fazer teatro. Vamos acabar sem ter representado.

Claude – Mas, então, existimos?

Il – Também me convenci que éramos mortos de profissão, que tínhamos deixado a vida ao entrar neste palco. Mas vamos embora, é muito arriscado.

O Segundo Espectador – Il, por favor… Claude, por favor… continuem.

Claude (respondendo:) – Desculpe…Precisamos de pensar melhor.

17

Entram os gémeos Bastidores:

Bastidor 1- Põe a mesa.

Bastidor 2 – Põe o pano

Claude e Il sentam-se na mesa e ficam ocultos pelo pano

Claude (voz off) – Não é fácil

Il – (voz off) É fodido.

Claude – Mas nós vivemos disto!

Il – Temos de continuar, temos de continuar

Claude – Mas isto não era o que queríamos

Il – Ainda te lembras do que queríamos?

Claude – Procurávamos o teatro, melhor, a verdade através do teatro

Il – Mas isso mantém-se.

Claude – Mantém-se?

Il – Sim, a nossa procura continua.

Claude – A nossa procura?

Il – Sim, é por isso que aqui estamos.

Claude – Mas qual procura? Fazemos o mesmo todos os dias e raramente é verdade. Das 200 representações que fizemos este ano, quantas foram teatro, quantas foram verdade? Andaste dois meses com uma micose na garganta e, pelo menos em vinte espectáculos, corri a vomitar durante o black-out.

Il – Tens razão, vamos acabar com esta merda.

Claude – Espera, Il… e depois?

Il – Depois fazemos teatro só quando for verdade.

Claude – E como vamos fazer para anunciar antecipadamente quando é verdade?

Il – Foda-se! E eu tenho de saber tudo?

Claude – Tu é que tiveste a ideia.

Il – Há quanto tempo andamos com esta peça?

Claude – Seis meses

Il – Aborta-se já!

Claude – Ah, agora decides por mim…

Barulho em lento crescendo, crescendo, crescendo.

Estrondo. Mesa e pano pelo ar. Os gémeos são empurrados para fora de cena.

Il (virando-se para o único espectador:) – O senhor merece. Sim, sim, o senhor merece. Por si vamos continuar.

18

Um relógio pendurado à cabeça da agonia, desfralda magneticamente as horas. Pretende-se um certo charme coreográfico nem que seja pela abstinência de posições concretas. Representa-se a peça anti-governamental: “Jesus e os seus idílios”.

Ouvem-se pastorais executados pelo cravo bem temperado. A sala enche novamente.

VOZ – Enfim, vamos lá ver o que eles querem!

O burburinho esmorece e dá lugar à récita dos lugares conhecidos.

Teresa de Calcutá fala de barrigas vazias, cheias de água, com um sorriso nos lábios hiperfinos, mas também – verdade seja dita – com mágoa.

Teresa de Calcutá – Está próximo o fim!

19

O Fim aproxima-se:

Fim – Venho aqui exclusivamente pela consideração que os intervenientes me merecem. Estou cansado de ser chamado a todo o lado. Será que, por uma vez, não podem prescindir de mim? Baixam muitas cabeças curvadas pelo remorso de reclamarem um Fim.

Claude – Ah, Fim, como te agradeço!

Fim – Dou, então, pela autoridade que me é conferida, o espectáculo por terminado.

Il – Ah, Fim, estou-te imensamente grato!

Il abraça Fim.

Aperta-o fortemente.

Há um esboço de luta que termina com a queda de Fim.

Ouvem-se as pancadas de Molière. Abre-se o pano.

06/03/2007 Publicado por | matetéria textuina | Deixe um Comentário

   

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