sumidouro

muuuuuuuuuuubimento

Raul Brandão / Luiza Neto Jorge

Ninguém Ama Ema
Copulação dramática de textos de
Raul Brandão e Luiza Neto Jorge

Image hosting by Photobucket
Intérpretes: João Ascenso e Sónia Alves
Com Aurélie Quilgars e Carla Simões
Figurinos: Cláudia Gonçalves
Música: Puccini e Saint-Saens
Versão dramática, encenação, cenário e luzes: Alberto Augusto Miranda

A partir do Húmus de Raul Brandão e dos Sítios Sitiados de Luiza Neto Jorge, proveu-se uma encenação que desfigura estereótipos e recompõe o mais de nós. O efeito catártico e o indeslumbre provocado fazem, deste acontecimento, um momento sem continuidade, a Vida, para além dos silêncios que as respostas provocam.

João:
Estamos aqui todos à espera da morte! estamos aqui todos à espera da morte!

Sónia:
Posso estar aqui
eu posso estar aqui perfeitamente pobre
um círio me acendi espora aguda
o vento ritmo negro assassinou-o

posso estar aqui
– o musgo é lento como a sombra –
e sei de cor a voz cega das canções
(viola de silêncio acorda-me)

que eu posso estar aqui perfeitamente pedra
insone
e um longo segredo impessoal
bordando a minha solidão.

João:

Atrás da insignificância andam os céus, os mundos, os vagalhões doirados.
Anda o desespero
Anda o instinto feroz.
Atrás disto andam as enxurradas de sóis e de pedras, e os mortos mais vivos do que quando estavam vivos. Atrás do tabique e das palavras anda a Vida e a Morte e outras figuras tremendas. Atrás das palavras com que te iludes, de que te sustentas, das palavras mágicas, sinto uma coisa descabelada e frenética, o espanto, a mixórdia, a dor, as forças monstruosas e cegas.

Sónia:
trago um filho
que parte o caule às estrelas
é louco e sofre
e parte o caule às estrelas

João:

Para não ver, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa do jogo. Para te não ouvires a ti mesmo, para não veres o que te gasta a todos os minutos e a todas as horas, usura imensa que não sentes e que te vai levar para o escantilhão sôfrego, que te vai mergulhar no silêncio profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inúteis. Todos os dias acordamos com mais fel. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o espanto pior que trazemos connosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem importância nenhuma. Com isto enchemos a vida até chegar a morte. Esta mesa de jogo é a nossa existência vulgar, a vida de todos os dias, com o galope da outra vida ao lado.
Não se passa nada! não se passa nada!

Sónia:
Tragicamente o sol
põe luz nos braços
a morte é uma feira aberta em lua

João:
No verão o calor sufoca, de inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amolece, dissolve pilares das janelas, casebres e a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um círculo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragédia – e as montanhas não desistem. De quando em quando, na solidão que à noite redobra, caem do alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa.
O som tem um peso desconforme.

Sónia:
Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sob os barcos
venham em rodas de sol

os montes os túneis e deus

estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite

João:

Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos séculos, e os seres que passam meras sombras.
Tudo isto me pesa e pesa-me também não viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto.
A árvore cumpre, o bicho cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituar à aquiescência e à regra?
Crio cama, e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.
– É necessário abalar os túmulos e desenterrar os mortos.

Sónia:

A virilha verde congestionou-me o sonho. Relentado a par de mim e a voz, o eco. Há corpos de homens, rígidos, para deitar abaixo com uma bola vermelha, corpos, subitamente, numa barraca de feira.
A virilha verde retesou-me o sonho.
Porquanto o horizonte é uma centopeia grande, o mar é uma centopeia grande. Nós uma centopeia emborcada, a arranhar o ar.
Abano-me com um leque de papel amarrotado. Saturo-me de coisas familiares. No outono, as flores apócrifas, no papel da parede, deixarão zumbir corolas.
A virilha verde sugou-me o sonho.
O sexo da 2.ª pessoa induvidada. A alma da 2.ª pessoa ambígua é o aberto entre mim e o sangue.
Sangra um lábio ilúcido arpoado no meu.
E o silêncio espásmico.
A virilha verde amorteceu no sonho.
Será urgente talhar uma paz apodrecida, a chicote, pelas manhãs nervadas?
Dormiste com as chaminés a fumegar.
Dormi a dar à luz.
Para se defender de nós, a noite estendeu o escudo. Há uma lua apedrejada de mitos e estrelas.
A virilha verde morreu.

Vigília.

Sónia:

Saí de casa ontem. Vou correr mundo, vou matar-me. Emancipada da noite, livre indoloridamente; minha angústia despediu-se, lambeu-me as mãos. Somente a flor prometeu realizar-se ainda. Então parto. Encontrarei o cão das noites líquidas e, na colcha, um cogumelo letárgico de lua.

João:

É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma influência oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira na existência, que é metade do nosso ser. Incerteza, dúvida, remorso… Nunca se cerra de todo a porta do sepulcro, sentimos-lhe sempre o frio. Agora não, a vida pertence-nos. A morte não existe, desapareceu a morte…
Ali a um canto um ser desata a rir, a rir, a rir como nunca ninguém se riu.

Sónia:
Como os comboios passam, só as árvores arrastadas sabem. Enquanto os comboios passam as estátuas renascem para a morte. Quando os comboios passam, a desculpa das calhas paralelas, o perdão dos crimes paralelos. Se os comboios passam, as pedras castram a liberdade humana.

João:
A noite é de aparato. A lua de coral sobe por trás da montanha em osso, e depois na chanfradura das ameias. Mais flores – todos os galhos dão flor. Sente-se, quase se ouve, a dor das árvores, dos seres vegetativos, ao terem de apressar, de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.
– Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais dois dias e tinha suprimido a morte!

Sónia:
Sigo para o cabaré distante. Nasce, ao fundo da sala qualquer mesa vermelha entornada na música. A noite é em lâminas. Sentem-se vários animais febris suspensos dos telhados a tentarem um equilíbrio nos trapézios eléctricos.

João:
Ouço-me viver com terror – e caminho nas pontas dos pés para a morte.
Se a vida futura é um absurdo, esta vida é um absurdo maior. É tudo uma questão de hábito. Tanto sonhei contigo que te construí. Sou aqui tão necessário como as estrelas do céu. Aqui estou, criatura mesquinha, com a dor a meu lado, com sonho a meu lado. Hei-de acabar por te dominar. Não há morte que te valha! Isto é abjecto, ás vezes é grotesco – mas se isto desaparecesse, desaparecia Deus e, com o maior dos sonhos, todos os outros sonhos.

Sónia:
Chove todo o segredo dos segredos extintos pela rua. À chuva não acontece o possível. Acontece.

João:
Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adere. Há dias em que não distingo estes seres da minha própria alma; há dias em que através das máscaras vejo outras fisionomias, e, sob a impassibilidade, dor; há dias em que o céu e o inferno esperam e desesperam. Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê-la vir à supuração.

Sónia:
Gritámos com a ambulância exausta. Acenava, de dentro, um homem morto. E a página de fora de um jornal antigo, do dia anterior, antigo, insustentável, com fotografias perfeitas e um eclipse longínquo, na beira do passeio.

João:

O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. Só isto existia? Quando tudo em mim me pregava que aproveitasse este momento, que deste único momento extraísse tudo que ele me podia dar – alguma coisa me detinha. Eras tu consciência. E tu não existias!
Sónia:
É certamente pela rua que vou. Golfadas de olhos e cabelos e um oboé silencioso. Desalinho. Vagueia um automóvel onírico. É pela rua. Que vamos. Que somos acometidos pelas costas. Estilhaçados de inércia. Poderosos de sexo. Invariáveis.

João:
O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida: encerra em si a vastidão do universo. E com isto teve de atender a máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas – todos somos afinal só fantasmas, e o que construímos já não cabe entre as quatro paredes da matéria…
Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.

Sónia:
Sinto que posso subir às árvores e colher os ninhos. Tenho mãos líricas de ladrão de luas, mãos crucificadas em palcos de tragédia. Espalhar depois as penas dos pássaros em novelos desfiados. Ser cruel, febrilmente cruel, colher ninhos, abrir crisálidas.

João:
Desprezo a dor. Exijo-a diante da eternidade. Sou capaz de andar de rasto com a boca no pó, sou capaz de sofrer todos os tormentos, com a certeza de que me livro de uma eternidade de angústias para ver Deus. Venham todos os escárnios, todos os gritos, todos os suores da agonia – venha meu Deus a cruz!

Sónia:
Desculpem-nos a liberdade dos suicídios macios nas traseiras dos jardins. Ou os partos dramáticos enterrados na areia. É tão verde o sol que nos rompe as órbitas. A casa deserta rodou três vezes.

João:

Até à morte hei-de crer no que creio. Sem crer não sou nada – sem crer não existo – sem crer não compreendo a vida. Preciso de caminhar para um destino. Crer é uma necessidade absoluta, um sentimento primário, a própria vida, sua razão e seu fim. Tenho necessidade de Deus, como do ar que respiro. Sem ele a vida é desconexa e atroz; pior, é monstruosa. Creio porque creio. Se a vida se reduzisse só a isto, a vida seria abjecta. Dentro em mim tudo me fala numa lei, numa lógica, numa razão de ser, num sentido. Eu vejo Deus, eu sinto Deus.

Sónia:
O dia começa pela sombra
como um povo começa pelo pó
luz e morte coincidem hora a hora

João:
Mas se Deus não existe – se Deus não existe que me fica no mundo? Sou nada no infinito. Fui tudo – e sou nada. Leva-me a força bruta. Sou o acaso na mistificação. Sou menos que nada no monstruoso impulso. Se Deus não existe tanto faz gritar como não gritar. Não tenho destino a cumprir: saio do nada para o nada.

Sónia:
Atrás do meu gesto
a mão sozinha os dedos conspirando
assimétricos
salientes do corpo até à morte

João:
Nas mãos da força bruta que sou eu no mundo que grito, que discuto, que clamo?… Atrás deste infinito vivo, há outro infinito vivo. Atrás desta impenetrabilidade, há outra camada de impenetrabilidade, outra vida ainda, outro desespero sôfrego. Não encontro aqui lugar para Deus que me ouça, que me atenda, ou que saiba sequer que existo.
Os gritos são inúteis, tu não me ouves. Estou só neste absurdo que me impele e esmaga… Que não houvesse o céu, que houvesse o inferno! só o inferno! e nem o inferno existe!…

Sónia:
Louca como era a da esquina
recebia gente a qualquer hora

Caía em pedaços e
vejam lá convidava as rameiras
os ratos os ninhos de cegonha
apitos de comboios bêbados pianos
como todas as vozes de animais selvagens.

João:
Do sonho que revolve o mundo cabe também uma parte à mulher da esfrega. Arrasta tudo consigo. Cai o inverno dentro da primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.
Está aqui a figura – está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse possível as lágrimas usarem por dentro as figuras humanas, com a chuva ou os passos gastam a pedra. Aquilo dura um momento, transparece um minuto, mas esse minuto chega. Logo à submissão e à humildade se mistura um nada de entontecimento. Quase nada. Trouxe sempre consigo debaixo do xaile um resto de sonho amargo.

Sónia:
Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.

João:
Ela foi uma flor que se aspira e de deita fora – quase sem reparar – cismando na imortalidade da alma.
Se eu pudesse cinematografar a vida de uma flor, cinematografava a sua vida. Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa é o que ela disse à grande nódoa de humidade da parede.
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Entre mim e ela interpôs-se o sonho.

Sónia:
Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronométricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

João:
Resta-me o bem. Mas fazer o bem para quê se tudo acaba ali, se não há outra vida consciente, se não tenho de responder perante ti pelos meus actos? E mesmo diante do escantilhão sôfrego, o que é o bem e o mal? A que eu tenho de obedecer é ao instinto e mais nada. Se não estás aí para me julgar e para me ouvir, que importa fazer isto ou fazer exactamente o contrário? Só uma coisa resta: iludir os desgraçados, levá-los para uma mentira cada vez maior, para que possam suportar a vida. Não se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto – trata-se de mentir, de mentir sempre – de mentir cada vez mais.

Sónia:
Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

João:
Lá vai a Teles, e a D. Restituta – lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite… A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho doirado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde.

Sónia:
É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

João:
– O dever? que dever? Antes a deixasses morrer de fome.
Sónia:
– Mantive-a para cumprir o meu dever.
João:
– Olha, se podes, pata ti, olha para dentro de ti, olha mais fundo para ti.
Sónia:
– Matei-lhe a fome.
João:
– Mataste-lhe a fome mas não pudeste amá-la.
Sónia:
– Nem posso! nem posso! nem posso!

(Silêncio)

João:
O adultério é uma questão de teatro.
Acaba de tirar a máscara. Arranca de vez a máscara… A mulher honesta só tem deveres a cumprir; a outra atirou com o fardo pela borda fora e afronta-a. Põe-nos à vontade. Com ela avançamos e regressamos: é a besta e a mulher de luxo.

Sónia:
Nunca te conheci – assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio.
Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.

João:
O corpo médico também evolucionou. A sua grande missão consiste em matar, em suprimir os sifilíticos, os paranóicos, os tuberculosos, todos os que constituem um perigo para a humanidade futura.

Sónia:
A pobreza surge dentro de nós. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

João:
O futuro há-de dividir a história em três períodos: o dos senhores; o da Igreja que manteve os desgraçados na subordinação, prometendo-lhes o reino dos céus; o dos escravos…

Sónia:
Inventei a nossa morte em toda a possível extensão das palavras. Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.
Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

João:
O amor é um único minuto. Um minuto esplêndido. O resto é hábito, palavras, hesitações, trampolinice, livros de capa amarela…

Sónia:
Enterro o meu temor como um alfange ma terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.

João:
– Também eu D. Leocádia! Lé com cré. Também eu, se me liberto disto que não tem significação, não encontro nada que tenha significação. Chegámos ambos ao ponto e estamos ambos estarrecidos. Moeste-te e moeste-me por uma palavra apenas… Olha bem para ti! olha bem para dentro de ti! Moras na rua da Betesga, entre duas ou três curiosidades seculares. Usas um vestido de lemistre, luvas de algodão no fio e um broche pendurado ao pescoço. Não sei por que bambúrrio se te encasquetou no toutiço a ideia de Deus e do dever, e de que o infinito tem de dar importância ao teu problema, aos teus flatos e ao teu broche, onde um retrato de suíças não tira de mim os olhos de peixe… Não mastigues. Bem sei que só nós, tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre, é que somos capazes de contrair noções, talvez erróneas mas profundas, do bem e do mal. Os outros bichos têm mais que fazer.

Sónia:
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.

João:
A cidade é odiosa. Por toda a parte hotéis, palácios, entulho, chalés, casernas, avenidas novas.

Sónia:
És tu tão único como a noite é um astro.

João:
Por toda a parte tine o oiro, jorra a luz dos reflectores e declamam charlatães como palhaços de feira.

Sónia:
Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu nome profissão morada telefone.

João:
Ó morte que tão bem cheiras, aqui me tens para te servir. Ó morte que tão bem cheiras, tu dilues o travor de fel e acalmas a acidez da inveja. Agora aguenta-te, majestosa Teodora!

Sónia:
Disse-te: eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

João:
outro dia foram encontradas num banco do jardim duas velhas de setenta anos, que declararam ser filhas de príncipes na miséria, e que ninguém quis reconhecer, ninguém quis atender…

Sónia:
Não queria matar-te. Choro.

João:
Por toda a parte teatros, palácios monumentais, avenidas de cartão e pasta, monumentos de cimento e ripas, cenário, lixo e afronta. Um edifício esmaga e domina toda a casaria, o casino insolente, com a obscena cúpula de vidro. Todo o dia, toda a noite, as orquestras tocam e os remoçados apressam-se a gozar, as mulheres a distinguir amarelo, as opulentas criaturas soberbas de luxo, outra vez moças e sôfregas de vida.

Sónia:
Eis-me! Eis-me!

Sónia:
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

É a casa do mundo:
desaparece em seguida.

João:
Entre as pazadas de oiro, ressoam as marteladas das construções, que se erguem no espaço de uma semana, novos hotéis, novas avenidas, teatros novos. E duas intermináveis filas, a dos doentes e exaustos, a dos remoçados, não descontinuam de gritar: – A vida! a vida! a vida! – O gozo! o gozo! o gozo! – Uma entra no Palácio, a outra sai do Palácio; eles de negro vestidos, elas adornadas para um baile, de branco como noivas. Remoçados e uma secura de inferno, outra vez novos e na boca um sabor a pó. Que estranho cortejo, brilhante de pedrarias, com as úlceras transformadas em sorrisos! Eles sorriem, elas sorriem. Incide sobre a bicha o jogo dos reflectores. E nesta alegria, uma solidão de jazigo. Alguma coisa morreu. Nem todos os fachos eléctricos, nem todos os risos, espancam as sombras que os envolvem – nem todos os perfumes o cheiro a cova – nem todas as jóias as chagas, a luxúria, as almas de aço. Cada homem de negro, cada mulher de branco leva consigo um cadáver.

Sónia:
A vida está cada vez mais cara
no meu tempo a vida
era mais em conta
fazia menos calor
as cidades não mudavam de lugar
corria uma brisa, como uma vassoura.

O fruto, um autómato surpreendido.
Desprendeu-se da casca, que viu?
Um autocarro, um avião, um submarino.
Os frutos frios por fora
são por dentro aquecidos a electricidade.
os frutos davam frutos, flores, brinquedos.

No meu tempo o rio corria limpo
como um corredor novo
nadávamos nus
uns pelo meio dos outros
extraíamos um amante do vulcão mais próximo.

João:
A um dos meus o mais novo
o mais próximo da sua idade
matou-o o fumo!

Sónia:
Vivia-se até à última.
A vida era mais em conta;

João:
depois
derramaram-se histórias sobre mim
os olhos de Buda destilavam
penicilina, eram o que se chama uns olhos
divinos.

Sónia:
Nunca mais quero animais
em casa.

João:
Morriam os animais
comprava-se veneno,

Sónia:
Matava-se gente.

João:
Muito amantes dormindo sobre a lava.
Morríamos em ilhas separadas por
um cordão de rios ininterruptos.
Nem tínhamos idade para ser crianças num
continente.

Sónia:
Havia no meu tempo fábricas
sumptuosas. Onde se fabricava uma constelação
exacta e limpa, um amor sumptuoso e seus afluentes,
e ínfimas máquinas purgatórias.
Fabricava-se mais e melhor que hoje.

João:
Não há respeito por ninguém;
por exemplo o diamante
não tem a utilidade de uma jóia:
é só um diamante (para um asceta)
só um dia amante (para um suicida).
Com uma jóia, sim, compra-se o mundo.

Sónia:
No meu tempo mal se via a terra
às escuras. Uma luz satélite, um olho
artificial,
uma luz de fruto verde frio por fora
operava esse milagre, essa visão.

João:
Meu pai, que se ausentara,
sabia que seu pai ia ser morto.

Sónia:
Estendia-se a roupa sobre o fogo.
Crescia o pão largo como uma
ampola de penicilina, em tempo de guerra
de guerrilhas.

João:
Estamos aqui todos à espera da morte! estamos aqui todos à espera da morte!

Sónia:
As mulheres, é espesso perfume lembrá-lo,
têm ângulos ausentes no que vêem e no que falam e nas
ocultas
nebulosas do seu corpo
o amante adivinha como um homem traído.

João:
Estamos aqui todos à espera da morte! estamos aqui todos à espera da morte!

Sónia:
Minha irmã é que nasceu a falar
de um derramamento colossal
da solidão.

João:
Estamos aqui todos à espera da morte! estamos aqui todos à espera da morte!

FIM

07/03/2007 - Publicado por | fervedura noutras escritas

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